sábado, 13 de maio de 2017

Pedra

Todos os dias eu durmo preparada para não acordar no outro dia, todos os dias eu acordo preparada para morrer no meio da rotina. Eu tenho um sorriso fácil que não precisa de motivo, mas se ele aparecer hoje eu confesso que não ligo. Eu pareço flor, eu queria ser flor, mas nasci pedra e fui arremessada contra uma vidraça em uma rua qualquer. Mas os instantes que estive em suas mãos foram inexplicáveis, o calor da sua pele aumentava enquanto a veia por baixo dela pulsava acelerada. Em fração de segundos eu estava misturada aos estilhaços no chão, orgulhosa de ter cumprido minha função.

Dizem que você não viveu tão intensamente até o provar o veneno do escorpião. E essa noite eu sonhei que era tocada pelas suas mãos, indescritível sensação. Tinha uma expressão de prazer no seu rosto que eu jamais havia visto em outra pessoa, enquanto a sua voz sussurrava pra mim: “você é boa”. Abri meus olhos em silêncio pra ouvir as batidas do meu coração, respirei fundo expelindo o excesso de paixão. Não se preocupe, não sou do tipo que deixa transparecer, eu sei manter em segredo tudo que acontecer.

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Vai pássaro livre, voa pra longe de mim
Vai beija-flor, polinizar outro jardim
Eu sereia, me recuso a sair do mar
As profundezas escuras que chamo de lar

Sua crueldade parece não ter limite
A postura indiferente que me agride
E destrói a imagem que um dia tive
Fico cara à cara com essa realidade triste

Sendo aquele que sempre traz amor
Como pôde você me trazer toda essa dor?
Sendo aquele que sempre traz sorrisos
Como pôde você fazer isso comigo?
Disse que o amor curaria minha ferida
E hoje só consigo sentir que fui iludida